Foco deve ser a acumulação de patrimônio, não a rentabilidade

Por Fábio Portela

Alguns leitores têm me pedido recomendação sobre como proceder em períodos de tanta incerteza quanto o atual. É melhor investir em ações ou em renda fixa? É hora de vender o imóvel? Ou de vender todas as ações e aplicar em renda fixa? É hora de abandonar o tesouro direto e começar a investir em fundos imobiliários?  Investir em dólar? Tenho sempre respondido que cada situação enfrentada por diferentes pessoas é diversa e demanda uma análise bem particular. Mas uma resposta cai bem em todas as situações: o foco do investidor de longo prazo (e que tenha um bom tempo de investimentos pela frente) deve ser acumular patrimônio, sem se importar tanto com a volatilidade dos seus investimentos.
http://matheusboni.files.wordpress.com/2012/03/tio-patinhas-690f8.jpg?w=530

Ações foram muito pior do que a renda fixa nos últimos anos?

Depende. Que ações? E que renda fixa? Por exemplo, Ambev, Marcopolo, Banrisul, Hering e várias outras empresas renderam muito nos últimos anos, mesmo com a crise econômica que o mundo tem enfrentado e que pegou de jeito o Brasil nos últimos meses.

Ebook de Fábio Portela

 
Mas vamos lá: se você acha que o rendimento das ações foi MUITO pior do que o da renda fixa nos últimos anos, vou te desapontar. Lembre-se que o mundo passou e está passando ainda por um período muito conturbado e que muitos compararam com a grande recessão. Ou seja, muitos esperariam que alguém que tivesse parte substantiva de suas economias alocada em ações deveria estar irritado porque teria sido extremamente melhor investir em renda fixa, porque não teria levado prejuízo.
Mas o investidor médio que aplicou em ações teve tanto prejuízo assim? Vejamos o que os números dizem, no seguinte gráfico, elaborado a partir de dados do próprio site da Bovespa e do Portal Brasil:
Variação Patrimonial
Esse gráfico representa a variação porcentual do patrimônio de alguém que tivesse, entre janeiro de 2007 e maio de 2013, 100 unidades hipotéticas investidas em quatro ativos diferentes  - um fundo de ações lastreado no Ibovespa, um outro fundo lastreado no índice de Small Caps, poupança e um investimento em tesouro direto lastreado na Selic (LFTs).
O que podemos observar? Que na pior crise econômica dos últimos tempos, quem apenas aplicou seus recursos no Ibovespa teria aproximadamente 25% de retorno em relação ao valor nominal que tinha no início da série.  Não foi tão catastrófico assim, concorda?
O que mais podemos observar? Que quem aplicou seus recursos na poupança
a teve ganhos de aproximadamente 55% no período. Bem melhor que quem aplicou na Ibovespa, não é verdade? A diferença de performance foi interessante – ele obteve mais que o dobro do que uma aplicação na Ibovespa. Guarde essa observação.
Mas quem aplicou em determinadas ações – as small caps – teve um resultado muito superior, de 77,74%. E isso, repito, no período de uma das piores crises das últimas décadas. Ou seja, o problema não foi o mercado de ações, mas um determinado mercado específico, já que em outros mercados a rentabilidade foi bastante satisfatória. Sem contar ações de empresas específicas, que se saíram muitíssimo bem no período.
Em termos estritamente nominais, a Selic também ganhou das Small Caps, com rentabilidade de 88,01% no período avaliado. Mas, veja bem: em um período horroroso para investir em ações, esse mercado saiu-se apenas marginalmente pior do que um investimento lastreado na taxa básica de juros, que informa a rentabilidade da renda fixa.

Foco do investidor deve ser acumular patrimônio

Mas observe: eu avaliei a rentabilidade acumulada no período de alguém que tivesse R$ 100 investidos nessas aplicações financeiras. Mas não é assim que as pessoas deveriam investir; elas deveriam economizar um pouco a cada mês e aplicar paulatinamente seus recursos, comprando um pouquinho a cada mês.
E essa mudança de metodologia tem implicações significativas. Para testar essa assertiva, elaborei o gráfico supondo que cada um dos quatro investimentos avaliados recebesse uma aplicação mensal de R$ 1.000 considerando o preço médio de cada ativo mensalmente. O resultado é o seguinte:
evolução patrimonial
Aqui, o resultado muda de figura. Ao longo dos 77 meses da série, o investidor que aplicou no Ibovespa teria um patrimônio de R$ 74.798,00, tendo investido R$ 77.000 ao longo do tempo. Mas o que parece ser uma perda, na verdade não é; o que ocorreu foi que, como o investidor foi comprando aos poucos, em determinados meses ele acabou formando um preço médio superior ao preço atual. Quando o Ibovespa retomar patamares mais elevados (o que ninguém sabe quando ocorrerá), esse cenário se reverterá. O que ocorre é que, aos poucos, ele acumulou R$ 74.000 que não tinha no início da série. É nisso que o investidor deve se concentrar – principalmente o investidor que está no início de sua “carreira”.
Na poupança, ele teria cerca de 30% a mais – R$ 96.071,84. Mas a grande questão é que, na poupança, ele jamais poderia ter, no longo prazo, um retorno como pode vir a ter na Ibovespa. Observe que até aproximadamente o 50º mês da série, o Ibovespa estava ganhando da poupança – e, a partir daí, começou a cair. Aproximadamente no 60º mês ambos voltaram a “quase” se tocar, mas houve novas quedas da Ibovespa. Mas a grande questão é essa: a volatilidade está a favor do investidor. Aliás, o mesmo motivo que levou a rentabilidade dele a ser pífia no momento em análise deve levá-la a melhorar no futuro; com as ações do Ibovespa a preços menores, é possível fazer preço médio menor – o que, no futuro, elevaria sua rentabilidade.
Mas observe o que ocorreu entre Selic e as Small Caps. No primeiro gráfico, a Selic ganhava das Small Caps. No segundo, as Small Caps obtiveram maior rentabilidade. Por que isso aconteceu? Por causa da volatilidade, como disse no parágrafo anterior. Observe no primeiro gráfico que a volatilidade das Small Caps é maior que a da Ibovespa e muito maior que a da Selic e a da Poupança, que seguem em curvas moderadamente ascendentes. Isso significa que, nas quedas, o investidor pôde adquirir quotas de um fundo de Small Caps por preços muito inferiores aos que teria adquirido, por exemplo, quotas do Ibovespa.
No fim das contas, quem topou o desafio de se arriscar com as Small Caps teria obtido, em média, um resultado final de R$ 113.311,62, ao passo que quem preferiu a Selic, teria um resultado de R$ 105.375,13. Uma diferença de aproximadamente 7% a favor das ações de empresas pequenas. Pouco, mas significativo, considerando que foi um período ruim para o mercado de ações.

A lição: não é o melhor investimento, mas a acumulação patrimonial, que conta

O que isso tudo quer dizer? Quer dizer que as ações são melhores que o tesouro direto? Não, a lição não é essa. A lição é que, independentemente do investimento escolhido, você teria um patrimônio maior do que tinha em 2007. Concentre-se nisso. Você não vai acertar sempre qual é o melhor investimento da vez. Pode ser o investimento em imóveis, pode ser o investimento em ações, pode ser os juros da renda fixa.
Se projetássemos o rendimento médio obtido pelos investidores nesses casos para os próximos anos, teríamos um quadro de bastante otimismo. Veja você mesmo:
tabela
Ou seja, mesmo extrapolando um cenário horroroso, alguém com disciplina poderia acumular um patrimônio respeitável economizando R$ 1.000,00 por mês. Uma objeção válida seria a de que não levei em conta a inflação no período – mas ela está “embutida”  no modelo porque não atualizei, também, o valor investido mensalmente. Com a inflação, decerto o investidor também aumentaria seus aportes.
O que eu quero dizer com tudo isso? Esqueça a idéia de acertar na mosca qual o melhor investimento em qualquer período. Se você diversificar o patrimônio, ainda assim obterá um resultado satisfatório, mesmo em cenários de dificuldade. Pegue o exemplo: se o investidor dividisse suas aplicações entre as quatro modalidades de investimento especificadas, ainda assim teria acumulado R$ 2.597.524,57. Com R$ 1.000 por mês e projetando taxas ridículas de crescimento no mercado de ações.
A moral da história é a de que a força dos seus aportes mensais não pode, jamais, ser deixada de lado. E, acredite: em algum momento a sorte voltará a sorrir para os investidores, com taxas de retorno melhores do que as dos últimos anos.

E-book para quem quer saber planejar-se financeiramente do Prof. Elisson Andrade


Sobre o Autor 

Fábio Portela é investidor desde 2006 e disponibiliza neste site seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, seja com sua experiência, seja por meio das leituras que fez ao longo dos anos. O autor é mestre em Direito Constitucional e em Filosofia pela UnB, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional na mesma instituição.http://opequenoinvestidor.com.br


Mantenha-se informado. Receba as postagens grátis!: Clique aqui e assine.

Você gostou deste artigo? Compartilhe:
TwitterDeliciousFacebookDiggStumbleuponFavoritesMore

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | coupon codes